Trinta dias, uma caixa de UL-250, uma embalagem de Fucicort e uma tentativa de entrada para o Guinness Book of Records por um número respeitável de picadas de insecto por cm2 de pele depois, cá estou firme e hirto e com uns 3 quilos a menos.
Toda a equipa está já em preparativos para o novo mês de trabalho, que começa com a ida da equipa de desenvolvimento para a Ilha das Galinhas já amanhã. A equipa médica seguirá na 4ª-feira. Porque a canoa da AMI está no estaleiro a fazer aquele lifting com que há tanto sonhava, a viagem vai ser um pouco diferente. Vamos atravessar a ilha de jipe até Bolama de Baixo para apanharmos boleia de uma canoa de pescador. Dizem que esta tabanca é a mais bonita de Bolama, por isso seguirei de máquina fotográfica em riste.
Bom, por ora vos deixo, uma vez que o jantar hoje é fruta-pão frita a acompanhar uma feijoada!
A mi na bai um outro biaz na Dju di Galinha! M' pera qui na curri tudo bem! Até logo!
domingo, 6 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Teoria da Relatividade
Bom dia, bom dia!
Kumã bu mansi?
Estamos naquela altura do mês... Altura de vir a Bissau. Quando cá pus os pés pela primeira vez tudo era novo e tudo era 3º mundo. Tudo mudou. Depois de passar 1 mês a tomar banho de caneca e a ter luz só quando o senhorio se lembra que precisa de gelo ou quando ligamos o gerador (quando funciona!), que não pode ser mais que 2 horas por dia por questões de racionamento, depois de passar 1 mês a comer arroz de chabéu com peixe-agulha, arroz de caril com safio, arroz com tainha ou arroz com arroz, Bissau parece a nova Nova-Iorque. Poder ir ao Kaliste comer um delicioso bife com molho de Roquefort, acompanhado de uma Super Bock bem gelada ou ir jantar à Adega do Loureiro um belo polvo à lagareiro regado com Romeira tinto fez-me soltar duas tímidas lágrimas; uma quando o prato aterrou na mesa e soltou o seu aroma, outra quando a última garfada deslizou pela glote. Poder ligar o ar condicionado e estar uns minutos indeciso quanto ao ajuste da temperatura - 26 ou 27º? - poder pegar no chuveiro e temperar a água ao gosto da minha pele, poder carregar num botão mágico que acciona uma invenção há muito esquecida - o autoclismo, poder estar aqui sentado e partilhar este pensamento enquanto fervilha sem estar preocupado com o indicador de bateria que já pisca a vermelho... Todos estes "poderes" ganharam um estatuto de luxo em tão poucos dias.
Bolama tem muito encanto, apesar de ser uma mera sombra do que as quarentonas fotografias, guardadas religiosamente num poeirento álbum de um bolamense saudoso, deixam perceber. Mas Bissau, cidade natal dos Toca-Toca, parece-me agora uma autêntica metrópole. Tudo é relativo.
Hoje já me desloquei ao CECOME para fazer o pedido dos medicamentos e material que teremos que levar para o mês de Novembro e não tenho nada mais senão trabalho administrativo para fazer hoje. Assim, como há tempo para inventar desculpas para não trabalhar, e aproveitando o luxo de ter internet por wifi, deixo aqui o "Manual do Toca-Toca".
Chama-se Toca-Toca porque, uma vez lá dentro, ombro toca em ombro, braço toca em braço, suor toca em suor...
Como apanhar o Toca-Toca:
1º Gritar bem alto quando algum passa, para que os passageiros abram a porta.
2º Correr o mais rápido possível, e preferencialmente pelo meio do trânsito.
3º Saltar lá para dentro, encenando algum episódio da série McGyver ou Esquadrão Classe A, consoante a preferência.
4º Certificar-se que a carreira escrita no exterior é mesmo a praticada pelo condutor.
Após este pequeno interlúdio cultural, ainda vos estou a dever o compte-rendu da ronda de S. João. O jipe atravessou o canal no dia anterior ao início da ronda, já com as caixas de medicação por mim preparadas. A equipa médica todos os dias apanhava a canoa do Tio Buli de manhã, tinha rendez-vous marcado com o Tio Alfa e o seu maior amor, e seguíamos viagem. Gã-Bacar, Gã-Mindjor e Berculom são as tabancas onde a AMI dá consultas.
Pelo caminho, vemos que a escola já começou. O início oficial do ano lectivo foi anunciado no início de Outubro mas na prática só recentemente é que se iniciaram as aulas, apesar de se manterem os problemas de falta de materiais, de falta de ordenados dos professores e mesmo de condições das próprias escolas.
Também foi inaugurada, no passado dia 26/10, a Escola de Enfermagem de Bolama! Espero que tenha sucesso e que dure.
As consultas na ronda de S. João são comparáveis às de Bolama. Apesar de existirem sempre problemas ligados à utilização e ao consumo de águas impróprias, problemas de higiene, desnutrição, malária, não há um volume de doentes exagerado nem casos tão graves como na Ilha das Galinhas. Aqui, as pessoas não estão verdadeiramente isoladas, apesar das deslocações também não serem fáceis. As condições em que vivem e o grau de instrução (embora básico) são portanto superiores.
As crianças são em todo o lado o grupo mais vulnerável. Na Guiné, a mortalidade infantil é astronómica, e segundo o Ministério da Saúde, a principal causa de morte ainda é a malária. No entanto, os acidentes são mais que muitos. Ainda não presenciei nenhum, mas o Pedro, que está cá há cerca de 8 meses, conta pelo menos uma dezena que morreram afogados no canal, afogados em poços desprotegidos, queimados na destilação artesanal do vinho de caju...
Nas tabancas cozinha-se no fogo, no chão à porta de casa, sem qualquer tipo de barreira ou protecção. Como é óbvio, muitas crianças se queimam com brasas ou água a ferver... A fotografia pode impressionar, mas este miúdo teve sorte, apesar de tudo. Já tem a cicatrização quase completa, e sem aparente infecção.
Quantos miúdos já eu consultei com queimaduras destas ou piores? Tenho tudo registado, mas não me atrevo a ir agora contar. Quantos com problemas de higiene, que só precisavam que a mãe lhes desse um banho por dia? Quantos com problemas de desnutrição porque onde a dificuldade é muita, impera a lei do mais forte?
A vida não tem preço, mas por aqui ainda não tem muito valor também...
Depois da consulta é hora de ir ao mato buscar uma gazela ou uma cabra-do-mato para o jantar, porque Agente de Saúde Comunitária não é reconhecido e não tem salário enquanto a reforma da Saúde não chegar a Bolama (o ministério diz ter todos os fundos alocados à campanha de distribuição de redes mosquiteiras para prevenção da malária. Foi pena não ter dado formação aos ASC de todas as regiões ao mesmo tempo, porque só ficou a faltar Bolama).
E no fim do dia, lá íamos nós esperar pelo Tio Buli o tempo que fosse necessário (recorde estabelecido de 2 horas até agora) para voltarmos para casa, porque a travessia tem que ser rentável pelo número de passageiros, e o descanso entre viagens é fundamental...
Bom... isto hoje é uma fartura! Para celebrar, finalizo com mais umas fotografias. Desta vez com uma amostra da fauna nocturna da casa da AMI de Bolama.
Kumã bu mansi?
Estamos naquela altura do mês... Altura de vir a Bissau. Quando cá pus os pés pela primeira vez tudo era novo e tudo era 3º mundo. Tudo mudou. Depois de passar 1 mês a tomar banho de caneca e a ter luz só quando o senhorio se lembra que precisa de gelo ou quando ligamos o gerador (quando funciona!), que não pode ser mais que 2 horas por dia por questões de racionamento, depois de passar 1 mês a comer arroz de chabéu com peixe-agulha, arroz de caril com safio, arroz com tainha ou arroz com arroz, Bissau parece a nova Nova-Iorque. Poder ir ao Kaliste comer um delicioso bife com molho de Roquefort, acompanhado de uma Super Bock bem gelada ou ir jantar à Adega do Loureiro um belo polvo à lagareiro regado com Romeira tinto fez-me soltar duas tímidas lágrimas; uma quando o prato aterrou na mesa e soltou o seu aroma, outra quando a última garfada deslizou pela glote. Poder ligar o ar condicionado e estar uns minutos indeciso quanto ao ajuste da temperatura - 26 ou 27º? - poder pegar no chuveiro e temperar a água ao gosto da minha pele, poder carregar num botão mágico que acciona uma invenção há muito esquecida - o autoclismo, poder estar aqui sentado e partilhar este pensamento enquanto fervilha sem estar preocupado com o indicador de bateria que já pisca a vermelho... Todos estes "poderes" ganharam um estatuto de luxo em tão poucos dias.
Bolama tem muito encanto, apesar de ser uma mera sombra do que as quarentonas fotografias, guardadas religiosamente num poeirento álbum de um bolamense saudoso, deixam perceber. Mas Bissau, cidade natal dos Toca-Toca, parece-me agora uma autêntica metrópole. Tudo é relativo.
Hoje já me desloquei ao CECOME para fazer o pedido dos medicamentos e material que teremos que levar para o mês de Novembro e não tenho nada mais senão trabalho administrativo para fazer hoje. Assim, como há tempo para inventar desculpas para não trabalhar, e aproveitando o luxo de ter internet por wifi, deixo aqui o "Manual do Toca-Toca".
Chama-se Toca-Toca porque, uma vez lá dentro, ombro toca em ombro, braço toca em braço, suor toca em suor...
Como apanhar o Toca-Toca:
1º Gritar bem alto quando algum passa, para que os passageiros abram a porta.
2º Correr o mais rápido possível, e preferencialmente pelo meio do trânsito.
3º Saltar lá para dentro, encenando algum episódio da série McGyver ou Esquadrão Classe A, consoante a preferência.
4º Certificar-se que a carreira escrita no exterior é mesmo a praticada pelo condutor.
Após este pequeno interlúdio cultural, ainda vos estou a dever o compte-rendu da ronda de S. João. O jipe atravessou o canal no dia anterior ao início da ronda, já com as caixas de medicação por mim preparadas. A equipa médica todos os dias apanhava a canoa do Tio Buli de manhã, tinha rendez-vous marcado com o Tio Alfa e o seu maior amor, e seguíamos viagem. Gã-Bacar, Gã-Mindjor e Berculom são as tabancas onde a AMI dá consultas.
Pelo caminho, vemos que a escola já começou. O início oficial do ano lectivo foi anunciado no início de Outubro mas na prática só recentemente é que se iniciaram as aulas, apesar de se manterem os problemas de falta de materiais, de falta de ordenados dos professores e mesmo de condições das próprias escolas.
Também foi inaugurada, no passado dia 26/10, a Escola de Enfermagem de Bolama! Espero que tenha sucesso e que dure.
As consultas na ronda de S. João são comparáveis às de Bolama. Apesar de existirem sempre problemas ligados à utilização e ao consumo de águas impróprias, problemas de higiene, desnutrição, malária, não há um volume de doentes exagerado nem casos tão graves como na Ilha das Galinhas. Aqui, as pessoas não estão verdadeiramente isoladas, apesar das deslocações também não serem fáceis. As condições em que vivem e o grau de instrução (embora básico) são portanto superiores.
As crianças são em todo o lado o grupo mais vulnerável. Na Guiné, a mortalidade infantil é astronómica, e segundo o Ministério da Saúde, a principal causa de morte ainda é a malária. No entanto, os acidentes são mais que muitos. Ainda não presenciei nenhum, mas o Pedro, que está cá há cerca de 8 meses, conta pelo menos uma dezena que morreram afogados no canal, afogados em poços desprotegidos, queimados na destilação artesanal do vinho de caju...
Nas tabancas cozinha-se no fogo, no chão à porta de casa, sem qualquer tipo de barreira ou protecção. Como é óbvio, muitas crianças se queimam com brasas ou água a ferver... A fotografia pode impressionar, mas este miúdo teve sorte, apesar de tudo. Já tem a cicatrização quase completa, e sem aparente infecção.
Quantos miúdos já eu consultei com queimaduras destas ou piores? Tenho tudo registado, mas não me atrevo a ir agora contar. Quantos com problemas de higiene, que só precisavam que a mãe lhes desse um banho por dia? Quantos com problemas de desnutrição porque onde a dificuldade é muita, impera a lei do mais forte?
A vida não tem preço, mas por aqui ainda não tem muito valor também...
Depois da consulta é hora de ir ao mato buscar uma gazela ou uma cabra-do-mato para o jantar, porque Agente de Saúde Comunitária não é reconhecido e não tem salário enquanto a reforma da Saúde não chegar a Bolama (o ministério diz ter todos os fundos alocados à campanha de distribuição de redes mosquiteiras para prevenção da malária. Foi pena não ter dado formação aos ASC de todas as regiões ao mesmo tempo, porque só ficou a faltar Bolama).
E no fim do dia, lá íamos nós esperar pelo Tio Buli o tempo que fosse necessário (recorde estabelecido de 2 horas até agora) para voltarmos para casa, porque a travessia tem que ser rentável pelo número de passageiros, e o descanso entre viagens é fundamental...
| Fui o meu próprio barbeiro... Que tal? :) |
| Antes eram as Tartarugas-Ninja. Agora é a vez dos Louva-a-Deus! |
| Batman ou Drácula? |
| A outra era maior... mas não estava no meu quarto. |
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
A pequena ambulância que tentou
Eis senão quando, uma comitiva oriunda de Cascais faz anunciar a sua
chegada com pompa e circunstância.
Bolama pára! Soam os tambores, dançam os
Balantas.
Canta o trovador que ambulância nova emergirá da bruma para equipar o
Hospital de Bolama, escoltada por um contentor carregado de livros que
ornamentarão a nova Biblioteca Municipal de Bolama.
Foi difícil a atracagem. Foi muito, muito difícil. Quase uma hercúlea
tarefa para o capaz comandante, e um suplício para os Tântalos de Cascais, que
não viam utilidade para uma ambulância no fundo do mar. Curioso porque, com o
abundante dinheiro disponível para a compra do ouro negro refinado que a fará
mover-se pelas auto-estradas bolamenses, eu conseguia ver tal utilidade. O lodo
é bastante liso e a maré-baixa fica sempre próxima do Zero Hidrográfico.
Estava então na altura de entregar as chaves, e de dar uma formação-choque
sobre as funcionalidades do Bicho automático com coração de V8 a gasóleo. Mas
rápido, para voltar a Portugal antes que mosquito pique!
Ah! E os livros? Bom, os livros já circulavam no Mercado do Caju no dia
seguinte à partida da bem intencionada comitiva.
Ronda de Bolama
A ronda de Bolama correu sem sobressaltos nem um volume de trabalho
exagerado. Bem me disseram que o mais complicado já tinha passado ficado para
trás, na Ilha das Galinhas. Dei consultas nas tabancas de Madina, Caboupa
Cabral e Wato, em unidades que em nada tinham a ver com as Galinhenses.
Deslocávamo-nos de jipe pelas estradas de terra crivadas de crateras que
pareciam engolir-nos de um trago. Valia-nos a condução calma e responsável do
Tio Alfa, cujo maior amor dizemos ser o jipe da AMI. Houve até quem
aproveitasse a boleia de volta após as consultas, e que tivesse direito a
devorar metade da minha sandes de atum ainda mais rápido do que eu!
Pelo caminho ainda nos fizemos amigos de uma família simpática. A matriarca
tinha o tamanho da minha mão aberta, o que me surpreendeu, pois o célebre canal
National Geografic sempre me disse que as maiores aranhas do mundo são
tarântulas. Talvez as mais peludas e assustadoras sim... Mas a teia desta minha
nova amiga tinha uns centímetros a mais do que a minha altura, e com certeza
teria alguma dificuldade em libertar-me dela, julgando pela grossura dos fios.
Estou a escrever esta mensagem em diferido por falta de tempo, de luz e de
internet, e talvez por isso sofra de alguma falta de condimento. But fear not, as new and exciting
adventures will surely follow!
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Ronda das Galinhas
Aqui falo então da parte pura e dura
do meu trabalho na Ilha das Galinhas. As fotografias poderão causar algum desconforto a olhos mais sensíveis.
Em Portugal, há dias em que se chega cansado a casa, sem vontade sequer de mexer os músculos orbiculares das pálpebras... Dias em que se vê uns 20 ou 30 doentes.
No primeiro dia, em Ametite, vi 36 doentes entre as 9h00 e as 15h00. Custou um pouco de início a engrenar, mas cedo a produção acelerou.
No segundo dia, em Ancano de Canhabaque, que não tem a Unidade de Saúde pronta, vi 58 doentes entre as 10h00 (porque não conseguíamos abrir a porta da Unidade de Ambancana, onde tínhamos deixado as caixas dos medicamentos) e as 17h00.
No terceiro e último dia, tínhamos de estar despachados às 12h00, o mais tardar, para podermos apanhar a maré alta, senão teríamos de regressar no dia seguinte. Comecei pedindo aos ASB para limitarem as inscrições a 25, dando prioridade a pessoas realmente doentes, crianças, grávidas e idosos, e que me avisassem quando esse número fosse atingido.
Ora a matemática nativa permitiu que visse 41 doentes entre as 8h00 e as 12h00 em ponto, altura em que pegámos nas caixas e corremos para nos enfiarmos na bem-dita canoa. (ainda deu tempo do último mergulho!)
Feitas as contas, ainda vi umas quantas pessoas... Mas era previsível, tendo em conta que o único médico a que têm acesso, se desloca à ilha uma vez por mês.
O dia iniciou-se tranquilo em Ametite, mas rapidamente a multidão foi crescendo.
A unidade, uma construção com normas específicas, fica situada na extremidade da tabanca. A sala de espera é no exterior e o gabinete médico é a divisão que se consegue ver na fotografia. À esquerda fica a farmácia improvisada, e à direita há uma sala com uma cama, que utilizei como sala de observação.
Em Ametite, cedo notei um certo desleixe por parte dos ASB pelo que no dia anterior avisei que queria a unidade minimamente limpa, com água e sabão, o filtro de água cheio, um lixo, e sabão para lavar as mãos. É o mínimo...
Cedo apareceram miúdos e graúdos com problemas cutâneos provocados pela deficiente higiene, má qualidade da água, contacto continuado com animais. Das outras queixas, a mais prevalente e perigosa neste meio é a diarreia. Uma criança ou um idoso, cujo estado nutricional na maior parte dos casos muito deixa a desejar, desidrata em poucos dias. Muito frequente é também a queixa de "curpo tudo na dê" - dores musculares e osteoarticulares no final dos longos dias de trabalho no campo. Curiosamente, todos os testes rápidos para P. falciparum (malária) que fiz deram negativo. Talvez por a estação das chuvas estar perto do fim, talvez pela campanha de distribuição em massa de redes de mosquiteiro pela OMS. Ainda não estava muito familiarizado com a clínica, sabia apenas o que tinha lido.
Aprendi também que o mel tem boas propriedades cicatrizantes. Nesta úlcera, já em fase de cicatrização, procedeu-se a limpeza, desinfecção, e penso com mel feito de dois em dois dias. O resultado é muito bom.
Em Ancano de Canhabaque tive de dar consultas na situação mais precária pela inexistência de Unidade de Saúde, ainda não finalizada por falta de materiais. Em baixo, o "consultório" montado ao ar livre, debaixo do telhado de palha do armazém improvisado do material de penso. Escusado será dizer que a observação dos doentes foi limitada pela não existência de uma maca e, como podem imaginar, de privacidade. Esforçava-me constantemente por "escorraçar" os mirones mas, como moscas atraídas por sujidade, eles voltavam. Apesar de tudo isto, senti uma maior dedicação dos ASB nesta unidade do que em Ametite.
Na "sala de espera" entravam livremente galinhas, cabras, porcos, cães... Penso que até uma vaca por lá passou.
Para afastar um pouco mais as pessoas, decidi montar a farmácia um pouco mais longe do consultório. Não evitei no entanto ser interrompido por alguém que não queria o medicamento X, mas sim o Y... Sim, até aqui isso acontece. Não cedi, e não me importei de ser insultado em bijagô.
Finalmente, em Ambancana, depois de ter passado pelas outras unidades, senti quase que uma lufada de ar fresco. Os ASB são dedicados e informados, a população tem já desenvolvidas rotinas de boas práticas de higiene e alimentação e existe material em relativo bom estado na unidade.
As consultas nas unidades decorriam sempre com o ASB, que ora servia de tradutor, ora punha as suas próprias questões, querendo aprender.
No que toca à limpeza e desinfecção de feridas e realização de pensos, verifiquei que os procedimentos são bem feitos, respeitando ao máximo a assépsia.
O tipo de doentes que vi em Ambancana era totalmente diferente das outras tabancas, havendo muito mais raramente queixas de diarreia e de problemas cutâneos. Tive também a impressão de observar um maior número de doentes mais idosos. Será que a esperança de vida também é maior nesta tabanca?
Consultei também doentes crónicos, nomeadamente hipertensos e um número anormalmente elevado de epilépticos na ilha. Temos de garantir medicação suficiente para um mês nestes casos.
Nesta unidade, realizei um teste de malária que deu positivo. Sintomas - mal-estar geral, fadiga, perda de apetite e sensação febril durante a noite. Ajuda muito realmente... Terei de estar atento. Aqui a malária, por ser muito resistente, trata-se com o topo de gama dos anti-maláricos: Artemether + lumefantrina - CoArtem para os amigos.
A farmácia continua muito desfalcada e só terei oportunidade de a reabastecer no final do mês, com duas rondas ainda por realizar. A minha preocupação é ter apenas as minhas mãos se tiver de lidar com alguma emergência... Seja o que Alá (estas bandas são em maioria muçulmanas) quiser...
Em Portugal, há dias em que se chega cansado a casa, sem vontade sequer de mexer os músculos orbiculares das pálpebras... Dias em que se vê uns 20 ou 30 doentes.
No primeiro dia, em Ametite, vi 36 doentes entre as 9h00 e as 15h00. Custou um pouco de início a engrenar, mas cedo a produção acelerou.
No segundo dia, em Ancano de Canhabaque, que não tem a Unidade de Saúde pronta, vi 58 doentes entre as 10h00 (porque não conseguíamos abrir a porta da Unidade de Ambancana, onde tínhamos deixado as caixas dos medicamentos) e as 17h00.
No terceiro e último dia, tínhamos de estar despachados às 12h00, o mais tardar, para podermos apanhar a maré alta, senão teríamos de regressar no dia seguinte. Comecei pedindo aos ASB para limitarem as inscrições a 25, dando prioridade a pessoas realmente doentes, crianças, grávidas e idosos, e que me avisassem quando esse número fosse atingido.
Ora a matemática nativa permitiu que visse 41 doentes entre as 8h00 e as 12h00 em ponto, altura em que pegámos nas caixas e corremos para nos enfiarmos na bem-dita canoa. (ainda deu tempo do último mergulho!)
Feitas as contas, ainda vi umas quantas pessoas... Mas era previsível, tendo em conta que o único médico a que têm acesso, se desloca à ilha uma vez por mês.
| O já célebre Mustafa, no seu papel de farmacêutico |
O dia iniciou-se tranquilo em Ametite, mas rapidamente a multidão foi crescendo.
A unidade, uma construção com normas específicas, fica situada na extremidade da tabanca. A sala de espera é no exterior e o gabinete médico é a divisão que se consegue ver na fotografia. À esquerda fica a farmácia improvisada, e à direita há uma sala com uma cama, que utilizei como sala de observação.
Em Ametite, cedo notei um certo desleixe por parte dos ASB pelo que no dia anterior avisei que queria a unidade minimamente limpa, com água e sabão, o filtro de água cheio, um lixo, e sabão para lavar as mãos. É o mínimo...
Cedo apareceram miúdos e graúdos com problemas cutâneos provocados pela deficiente higiene, má qualidade da água, contacto continuado com animais. Das outras queixas, a mais prevalente e perigosa neste meio é a diarreia. Uma criança ou um idoso, cujo estado nutricional na maior parte dos casos muito deixa a desejar, desidrata em poucos dias. Muito frequente é também a queixa de "curpo tudo na dê" - dores musculares e osteoarticulares no final dos longos dias de trabalho no campo. Curiosamente, todos os testes rápidos para P. falciparum (malária) que fiz deram negativo. Talvez por a estação das chuvas estar perto do fim, talvez pela campanha de distribuição em massa de redes de mosquiteiro pela OMS. Ainda não estava muito familiarizado com a clínica, sabia apenas o que tinha lido.
Aprendi também que o mel tem boas propriedades cicatrizantes. Nesta úlcera, já em fase de cicatrização, procedeu-se a limpeza, desinfecção, e penso com mel feito de dois em dois dias. O resultado é muito bom.
Em Ancano de Canhabaque tive de dar consultas na situação mais precária pela inexistência de Unidade de Saúde, ainda não finalizada por falta de materiais. Em baixo, o "consultório" montado ao ar livre, debaixo do telhado de palha do armazém improvisado do material de penso. Escusado será dizer que a observação dos doentes foi limitada pela não existência de uma maca e, como podem imaginar, de privacidade. Esforçava-me constantemente por "escorraçar" os mirones mas, como moscas atraídas por sujidade, eles voltavam. Apesar de tudo isto, senti uma maior dedicação dos ASB nesta unidade do que em Ametite.
Na "sala de espera" entravam livremente galinhas, cabras, porcos, cães... Penso que até uma vaca por lá passou.
Para afastar um pouco mais as pessoas, decidi montar a farmácia um pouco mais longe do consultório. Não evitei no entanto ser interrompido por alguém que não queria o medicamento X, mas sim o Y... Sim, até aqui isso acontece. Não cedi, e não me importei de ser insultado em bijagô.
Finalmente, em Ambancana, depois de ter passado pelas outras unidades, senti quase que uma lufada de ar fresco. Os ASB são dedicados e informados, a população tem já desenvolvidas rotinas de boas práticas de higiene e alimentação e existe material em relativo bom estado na unidade.
As consultas nas unidades decorriam sempre com o ASB, que ora servia de tradutor, ora punha as suas próprias questões, querendo aprender.
No que toca à limpeza e desinfecção de feridas e realização de pensos, verifiquei que os procedimentos são bem feitos, respeitando ao máximo a assépsia.
O tipo de doentes que vi em Ambancana era totalmente diferente das outras tabancas, havendo muito mais raramente queixas de diarreia e de problemas cutâneos. Tive também a impressão de observar um maior número de doentes mais idosos. Será que a esperança de vida também é maior nesta tabanca?
Consultei também doentes crónicos, nomeadamente hipertensos e um número anormalmente elevado de epilépticos na ilha. Temos de garantir medicação suficiente para um mês nestes casos.
Nesta unidade, realizei um teste de malária que deu positivo. Sintomas - mal-estar geral, fadiga, perda de apetite e sensação febril durante a noite. Ajuda muito realmente... Terei de estar atento. Aqui a malária, por ser muito resistente, trata-se com o topo de gama dos anti-maláricos: Artemether + lumefantrina - CoArtem para os amigos.
| Quando o ASB Tomás se estava a fotografar, achei de bom tom fazer de emplastro :) |
A farmácia continua muito desfalcada e só terei oportunidade de a reabastecer no final do mês, com duas rondas ainda por realizar. A minha preocupação é ter apenas as minhas mãos se tiver de lidar com alguma emergência... Seja o que Alá (estas bandas são em maioria muçulmanas) quiser...
Um dia na Guiné
O título da mensagem de hoje é o
título da música que comecei a compor quando as coisas começaram a correr
mal...
Devíamos começar hoje a ronda de
Bolama pela tabanca de Wato. Enquanto esperava pelo Mustafa - cerca de 1h
atrasado, como dizem que é hábito - o jipe arrancou com as caixas de
medicamentos e as malas médicas, para nós seguirmos na moto. Deixaria o
material na Unidade e seguiria para o trabalho hortícola com o Pedro.
Quando o Mustafa chega finalmente,
diz que não tinha avisado na tabanca que haveria consulta, estando a Unidade
vazia e fechada. O resultado foi ter ficado em casa, sem possibilidade de
adiantar qualquer tipo de trabalho, sem luz nem bateria no computador.
O resultado é o seguinte:
RE
m
LA M
Começo o dia a transpirar
RE
m
LA M
Nada faz este calor passar
SOL
m LA
M
RE m
Nem sequer o duche de caneca
FA
M LA
M RE m
Nem sequer o duche de caneca
O pequeno-almoço da Fatu
É mais seguro que o do Tu
Não faz borrar a cueca
Não faz borrar a cueca
Refrão
LA#M FA M
E é assim, e é assim
LA#M FA M
E é assim, e é assim
SOL
m LA M RE m
O nosso dia na Guiné
Quero começar a trabalhar
Para a casa à noite não chegar
Mas o Mustafa ainda não chegou
Mas o Mustafa ainda não chegou
Hoje era dia de ir a Wato
Uma tabanca no meio do mato
Mas o Mustafa não avisou
Mas o Mustafa não avisou
E é assim, e é assim
E é assim, e é assim
O nosso dia na Guiné
Trabalho em
progresso...
domingo, 16 de outubro de 2011
Ilha das Galinhas
Antes de falar da parte do trabalho na Ilha das Galinhas, do qual demorei
umas 24h a recuperar o fôlego, vou aqui apresentar a ilha em si.
| Uma tabanca nada mais é que um aglomerado de palhotas |
Ao verificar como realmente é isolada do resto do mundo, custa-me agora
menos perceber o que dizem sobre a AMI – que vai onde mais ninguém quer ir. Tem
uma população de cerca de 2000 habitantes, distribuídos por 11 tabancas.
Existe 1 enfermeiro para toda a população, que trabalha no único
"centro de saúde", localizado grosso-modo no centro da ilha.
Para sair da ilha, os locais têm de pedir boleia aos barcos que por lá
passam, entre os quais, a canoa da AMI.
| Depois de contornados os mangais, a chegada a Ametite por mar |
A AMI já anteriormente tinha construído latrinas em todas as tabancas da
ilha, num micro-projecto de saneamento. No entanto, assim que chegamos a
Ametite, local do primeiro dia de consultas, o Agente de Saúde Básica (ASB),
que deveria dar o exemplo ao resto da população, aparece-nos finalmente, logo
após ter ido defecar à mata... "Que bom que isto vai ser..." pensei
logo.
| Comissão de boas-vindas |
Depois há a questão dos poços… Não há um que não tenha contaminação fecal. Perto
de Ancano de Canhabaque (2º dia de consultas) existe o poço com piores condições
– um grande buraco no chão, com uma água de cor esbranquiçada. Não deverá ter
sido por coincidência que lá vi a maior prevalência de problemas de pele e de
diarreia.
A tarefa seguinte foi ir na moto, espalmado entre o Mustafa e as caixas de
medicamentos, "espalhar a Boa Nova" pelas tabancas. Os caminhos são
tão incríveis que filmei um bom bocado de um troço. Quando uma árvore cai, é
mais fácil ir desbastando um novo caminho à volta! Para a população não faz
grande diferença, pois os únicos veículos a motor na ilha inteira são as motos
da AMI e a moto do enfermeiro local.
| No cultivo do arroz, a função das crianças é manter os pássaros afastados na secagem |
Mas o maior perigo reside no gado que pasta à beira desses caminhos, atados
à vegetação circundante, mas com corda suficiente para atravessarem. Quando se
assustam com o barulho da moto, a corda inevitavelmente estica. O resto, deixo
à imaginação. Apesar de avisados, os locais não mudam hábitos.
Quando nos deparamos com um obstáculo quase incontornável (uma árvore
caída), o Mustafa utiliza um argumento de peso – se não resolverem o problema,
não haverá consultas em Ancano de Canhabaque. No caminho de regresso, os ramos
já tinham sido serrados!
| Um dos habitantes mais idosos |
Depois de convocadas as pessoas, é altura de ir para Ambancana, tabanca
onde está a casa da AMI e local do 3º dia de consultas. Diga-se de passagem que
esta tabanca é da era espacial, se comparada com as demais tabancas insulares. Têm
já o hábito de ferver toda a água que utilizam, o que traduziu um dia de
consultas quase sem problemas cutâneos ou gastrointestinais.
![]() |
| O grupo de teatro e dança local numa acção de sensibilização sobre a SIDA |
| A "nossa" casa... |
A casa é um cubículo sem água nem luz (como era de esperar), mas situada a
2 passos da praia. O mergulho na maré-alta no final do dia de trabalho, após um
repasto preparado na brasa, era um ritual quase religioso. Ganhava proporções
realmente celestiais quando ao longe deflagravam rajadas de relâmpagos.
| ...e a "nossa" praia. A maré baixa deixa perceber o fundo lodoso e os mangais ao fundo, mas garanto que o mergulho era divinal. |
Tenho estado a aproveitar a existência
de electricidade, mas agora, com a vossa licença, vou aproveitar o resto de luz
solar para findar a preparação das caixas para a ronda de Bolama que começa
amanhã.
Deixo-vos só o vislumbre com que fomos premiados na viagem de ida:
| Tenho pena de não poder por a foto com a resolução original. Flamingos a levantar voo |
Subscrever:
Mensagens (Atom)
