Aqui falo então da parte pura e dura
do meu trabalho na Ilha das Galinhas. As fotografias poderão causar algum desconforto a olhos mais sensíveis.
Em Portugal, há dias em que se chega cansado a casa, sem vontade sequer de mexer os músculos orbiculares das pálpebras... Dias em que se vê uns 20 ou 30 doentes.
No primeiro dia, em Ametite, vi 36 doentes entre as 9h00 e as 15h00. Custou um pouco de início a engrenar, mas cedo a produção acelerou.
No segundo dia, em Ancano de Canhabaque, que não tem a Unidade de Saúde pronta, vi 58 doentes entre as 10h00 (porque não conseguíamos abrir a porta da Unidade de Ambancana, onde tínhamos deixado as caixas dos medicamentos) e as 17h00.
No terceiro e último dia, tínhamos de estar despachados às 12h00, o mais tardar, para podermos apanhar a maré alta, senão teríamos de regressar no dia seguinte. Comecei pedindo aos ASB para limitarem as inscrições a 25, dando prioridade a pessoas realmente doentes, crianças, grávidas e idosos, e que me avisassem quando esse número fosse atingido.
Ora a matemática nativa permitiu que visse 41 doentes entre as 8h00 e as 12h00 em ponto, altura em que pegámos nas caixas e corremos para nos enfiarmos na bem-dita canoa. (ainda deu tempo do último mergulho!)
Feitas as contas, ainda vi umas quantas pessoas... Mas era previsível, tendo em conta que o único médico a que têm acesso, se desloca à ilha uma vez por mês.
O dia iniciou-se tranquilo em Ametite, mas rapidamente a multidão foi crescendo.
A unidade, uma construção com normas específicas, fica situada na extremidade da tabanca. A sala de espera é no exterior e o gabinete médico é a divisão que se consegue ver na fotografia. À esquerda fica a farmácia improvisada, e à direita há uma sala com uma cama, que utilizei como sala de observação.
Em Ametite, cedo notei um certo desleixe por parte dos ASB pelo que no dia anterior avisei que queria a unidade minimamente limpa, com água e sabão, o filtro de água cheio, um lixo, e sabão para lavar as mãos. É o mínimo...
Cedo apareceram miúdos e graúdos com problemas cutâneos provocados pela deficiente higiene, má qualidade da água, contacto continuado com animais. Das outras queixas, a mais prevalente e perigosa neste meio é a diarreia. Uma criança ou um idoso, cujo estado nutricional na maior parte dos casos muito deixa a desejar, desidrata em poucos dias. Muito frequente é também a queixa de "curpo tudo na dê" - dores musculares e osteoarticulares no final dos longos dias de trabalho no campo. Curiosamente, todos os testes rápidos para P. falciparum (malária) que fiz deram negativo. Talvez por a estação das chuvas estar perto do fim, talvez pela campanha de distribuição em massa de redes de mosquiteiro pela OMS. Ainda não estava muito familiarizado com a clínica, sabia apenas o que tinha lido.
Aprendi também que o mel tem boas propriedades cicatrizantes. Nesta úlcera, já em fase de cicatrização, procedeu-se a limpeza, desinfecção, e penso com mel feito de dois em dois dias. O resultado é muito bom.
Em Ancano de Canhabaque tive de dar consultas na situação mais precária pela inexistência de Unidade de Saúde, ainda não finalizada por falta de materiais. Em baixo, o "consultório" montado ao ar livre, debaixo do telhado de palha do armazém improvisado do material de penso. Escusado será dizer que a observação dos doentes foi limitada pela não existência de uma maca e, como podem imaginar, de privacidade. Esforçava-me constantemente por "escorraçar" os mirones mas, como moscas atraídas por sujidade, eles voltavam. Apesar de tudo isto, senti uma maior dedicação dos ASB nesta unidade do que em Ametite.
Na "sala de espera" entravam livremente galinhas, cabras, porcos, cães... Penso que até uma vaca por lá passou.
Para afastar um pouco mais as pessoas, decidi montar a farmácia um pouco mais longe do consultório. Não evitei no entanto ser interrompido por alguém que não queria o medicamento X, mas sim o Y... Sim, até aqui isso acontece. Não cedi, e não me importei de ser insultado em bijagô.
Finalmente, em Ambancana, depois de ter passado pelas outras unidades, senti quase que uma lufada de ar fresco. Os ASB são dedicados e informados, a população tem já desenvolvidas rotinas de boas práticas de higiene e alimentação e existe material em relativo bom estado na unidade.
As consultas nas unidades decorriam sempre com o ASB, que ora servia de tradutor, ora punha as suas próprias questões, querendo aprender.
No que toca à limpeza e desinfecção de feridas e realização de pensos, verifiquei que os procedimentos são bem feitos, respeitando ao máximo a assépsia.
O tipo de doentes que vi em Ambancana era totalmente diferente das outras tabancas, havendo muito mais raramente queixas de diarreia e de problemas cutâneos. Tive também a impressão de observar um maior número de doentes mais idosos. Será que a esperança de vida também é maior nesta tabanca?
Consultei também doentes crónicos, nomeadamente hipertensos e um número anormalmente elevado de epilépticos na ilha. Temos de garantir medicação suficiente para um mês nestes casos.
Nesta unidade, realizei um teste de malária que deu positivo. Sintomas - mal-estar geral, fadiga, perda de apetite e sensação febril durante a noite. Ajuda muito realmente... Terei de estar atento. Aqui a malária, por ser muito resistente, trata-se com o topo de gama dos anti-maláricos: Artemether + lumefantrina - CoArtem para os amigos.
A farmácia continua muito desfalcada e só terei oportunidade de a reabastecer no final do mês, com duas rondas ainda por realizar. A minha preocupação é ter apenas as minhas mãos se tiver de lidar com alguma emergência... Seja o que Alá (estas bandas são em maioria muçulmanas) quiser...
Em Portugal, há dias em que se chega cansado a casa, sem vontade sequer de mexer os músculos orbiculares das pálpebras... Dias em que se vê uns 20 ou 30 doentes.
No primeiro dia, em Ametite, vi 36 doentes entre as 9h00 e as 15h00. Custou um pouco de início a engrenar, mas cedo a produção acelerou.
No segundo dia, em Ancano de Canhabaque, que não tem a Unidade de Saúde pronta, vi 58 doentes entre as 10h00 (porque não conseguíamos abrir a porta da Unidade de Ambancana, onde tínhamos deixado as caixas dos medicamentos) e as 17h00.
No terceiro e último dia, tínhamos de estar despachados às 12h00, o mais tardar, para podermos apanhar a maré alta, senão teríamos de regressar no dia seguinte. Comecei pedindo aos ASB para limitarem as inscrições a 25, dando prioridade a pessoas realmente doentes, crianças, grávidas e idosos, e que me avisassem quando esse número fosse atingido.
Ora a matemática nativa permitiu que visse 41 doentes entre as 8h00 e as 12h00 em ponto, altura em que pegámos nas caixas e corremos para nos enfiarmos na bem-dita canoa. (ainda deu tempo do último mergulho!)
Feitas as contas, ainda vi umas quantas pessoas... Mas era previsível, tendo em conta que o único médico a que têm acesso, se desloca à ilha uma vez por mês.
| O já célebre Mustafa, no seu papel de farmacêutico |
O dia iniciou-se tranquilo em Ametite, mas rapidamente a multidão foi crescendo.
A unidade, uma construção com normas específicas, fica situada na extremidade da tabanca. A sala de espera é no exterior e o gabinete médico é a divisão que se consegue ver na fotografia. À esquerda fica a farmácia improvisada, e à direita há uma sala com uma cama, que utilizei como sala de observação.
Em Ametite, cedo notei um certo desleixe por parte dos ASB pelo que no dia anterior avisei que queria a unidade minimamente limpa, com água e sabão, o filtro de água cheio, um lixo, e sabão para lavar as mãos. É o mínimo...
Cedo apareceram miúdos e graúdos com problemas cutâneos provocados pela deficiente higiene, má qualidade da água, contacto continuado com animais. Das outras queixas, a mais prevalente e perigosa neste meio é a diarreia. Uma criança ou um idoso, cujo estado nutricional na maior parte dos casos muito deixa a desejar, desidrata em poucos dias. Muito frequente é também a queixa de "curpo tudo na dê" - dores musculares e osteoarticulares no final dos longos dias de trabalho no campo. Curiosamente, todos os testes rápidos para P. falciparum (malária) que fiz deram negativo. Talvez por a estação das chuvas estar perto do fim, talvez pela campanha de distribuição em massa de redes de mosquiteiro pela OMS. Ainda não estava muito familiarizado com a clínica, sabia apenas o que tinha lido.
Aprendi também que o mel tem boas propriedades cicatrizantes. Nesta úlcera, já em fase de cicatrização, procedeu-se a limpeza, desinfecção, e penso com mel feito de dois em dois dias. O resultado é muito bom.
Em Ancano de Canhabaque tive de dar consultas na situação mais precária pela inexistência de Unidade de Saúde, ainda não finalizada por falta de materiais. Em baixo, o "consultório" montado ao ar livre, debaixo do telhado de palha do armazém improvisado do material de penso. Escusado será dizer que a observação dos doentes foi limitada pela não existência de uma maca e, como podem imaginar, de privacidade. Esforçava-me constantemente por "escorraçar" os mirones mas, como moscas atraídas por sujidade, eles voltavam. Apesar de tudo isto, senti uma maior dedicação dos ASB nesta unidade do que em Ametite.
Na "sala de espera" entravam livremente galinhas, cabras, porcos, cães... Penso que até uma vaca por lá passou.
Para afastar um pouco mais as pessoas, decidi montar a farmácia um pouco mais longe do consultório. Não evitei no entanto ser interrompido por alguém que não queria o medicamento X, mas sim o Y... Sim, até aqui isso acontece. Não cedi, e não me importei de ser insultado em bijagô.
Finalmente, em Ambancana, depois de ter passado pelas outras unidades, senti quase que uma lufada de ar fresco. Os ASB são dedicados e informados, a população tem já desenvolvidas rotinas de boas práticas de higiene e alimentação e existe material em relativo bom estado na unidade.
As consultas nas unidades decorriam sempre com o ASB, que ora servia de tradutor, ora punha as suas próprias questões, querendo aprender.
No que toca à limpeza e desinfecção de feridas e realização de pensos, verifiquei que os procedimentos são bem feitos, respeitando ao máximo a assépsia.
O tipo de doentes que vi em Ambancana era totalmente diferente das outras tabancas, havendo muito mais raramente queixas de diarreia e de problemas cutâneos. Tive também a impressão de observar um maior número de doentes mais idosos. Será que a esperança de vida também é maior nesta tabanca?
Consultei também doentes crónicos, nomeadamente hipertensos e um número anormalmente elevado de epilépticos na ilha. Temos de garantir medicação suficiente para um mês nestes casos.
Nesta unidade, realizei um teste de malária que deu positivo. Sintomas - mal-estar geral, fadiga, perda de apetite e sensação febril durante a noite. Ajuda muito realmente... Terei de estar atento. Aqui a malária, por ser muito resistente, trata-se com o topo de gama dos anti-maláricos: Artemether + lumefantrina - CoArtem para os amigos.
| Quando o ASB Tomás se estava a fotografar, achei de bom tom fazer de emplastro :) |
A farmácia continua muito desfalcada e só terei oportunidade de a reabastecer no final do mês, com duas rondas ainda por realizar. A minha preocupação é ter apenas as minhas mãos se tiver de lidar com alguma emergência... Seja o que Alá (estas bandas são em maioria muçulmanas) quiser...