quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Um Domingo como outro qualquer

Depois de uma semana algo inglória, tinha chegado finalmente o Domingo. Aquele dia em que os trabalhadores locais da AMI têm descanso e a casa não tem o reboliço habitual de manhã. Aquele bendito dia em que podemos sonhar uns minutos mais com saudades de casa...
Qual quê? Sérgio, antigo chefe de missão da AMI, de visita a Bolama, perdeu o barco de regresso a Bissau (continuo sem saber como tal proeza foi possível). Toda a equipa foi mobilizada para tirar o motor da canoa de casa, pôr o motor na canoa, pôr a canoa na água, perseguir o Pecixe antes da sua chegada a Bissau e efectuar um transbordo em pleno mar... Deve ser por não haver televisão que as pessoas têm tanta necessidade de fabricar as suas próprias histórias mirabulásticas aqui em Bolama.
Após a toma do pequeno-almoço para recuperar dos trabalhos forçados logo ao acordar, um dia solarengo começa a despontar. Como a chefe não está presente (e espero que ela não leia isto), pegámos nas motos e fomos dar a volta à ilha. Que gozo! Que viagem! Que dia estava finalmente a ser! De tabanca em tabanca circulámos, cumprimentando as gentes ora com um abanar de cabeça, ora com uma buzinadela, ora com um grunhido (forma típica de comunicação guineense). Miúdos gritando ao longe "Branco! Branco Péléle!" Resposta sempre pronta "Preto! Preto Pauauau!" Risos! Sorrisos! Gargalhadas! Visitamos de relâmpago a famosa praia de Ofir, com ruínas de um passeio marítimo do tempo colonial. Regressamos a casa com espírito rejuvenescido e aligeirado.
Hora de encher os bidões de água, porque o senhorio tinha ligado a luz e a bomba de água. Claro que com a distracção de um almoço tardio na varanda, dois homens a governar uma casa acabam por inundá-la. Até a limpeza da piscina criada por engano deu lugar a divertimento.

Noite caída, o Pedro sai para ir buscar Combé (ameijoas do lodo) a uma tabanca por onde passámos, que fica óptimo cozinhado segundo a sabedoria local e uma boa malagueta a realçar o sabor. Volta 5 minutos depois dizendo que alguém está muito doente e a precisar de assistência imediata. Levamos o jipe e encontramos o rapaz trintão já inerte após um episódio agudo de hematemese abundante, segundo história de quem presenciou. Palpo pulso... nada. Respiração... nada. Sem qualquer resposta a qualquer estímulo. Inicio Suporte Básico de Vida? Para quê? Não existem quaisquer meios de ressuscitação no H. de Bolama. Não existem quaisquer meios de Suporte Imediato ou Avançado num raio de talvez 100kms. Tenho apenas as minhas mãos. Acabamos por servir uma vez mais de carro funerário.
Venho a saber que o rapaz tinha apenas sentido uma leve epigastralgia desde o dia anterior, mas que lhe chegava bem na bebericagem, diariamente. Ruptura de varizes esofágicas? Úlcera gástrica com antingimento arterial? Já não interessa saber.

Passo então no hospital para saber qual o estado dos doentes evacuados da Ilha das Galinhas apenas para descobrir que o tratamento prescrito não estava a ser respeitado. Não tendo qualquer protocolo de actuação neste hospital, acabo por eu mesmo de ter que realizar o plano terapêutico dos nossos doentes e de outros mais que tinham chegado. Os enfermeiros, que não se entendem entre eles por falta de coordenação, segundo os próprios, vendo um médico no hospital pedem prontamente ajuda, para uma criança de 6 meses com febre, farfalheira e que se encontra a convulsivar repetidamente e por períodos prolongados, e para uma senhora já idosa com queixas de precordialgia. Não existindo dinitrato no hospital (!!!) ainda tenho de fazer nova viagem com a nossa cabra de mato com o eixo traseiro pendurado por um fio, atravessando Bolama.
Na manhã de 2ª-feira decido evacuar para Bissau o rapaz oriundo da Ilha das Galinhas, por não responder aos tratamentos e não se conseguir chegar a um diagnóstico definitivo. Suspeitava de febre amarela pela marcada icterícia, hepatomegália e hematemese tipo borras de café. Mas o estado do rapaz continuava a agravar-se. Lá fomos nós na nossa servil canoa rumo a Bissau. Posso dizer que canalizar veias e pôr soros a correr em alto mar não é das coisas mais fáceis de se fazer, mas tem o seu encanto...

Hoje é 4ª-feira, dia de preparação da ronda de Bolama. Uma nova esperança me enche o espírito, sabendo que todos estes doentes se encontram estáveis e a recuperar, após uma semana com a maior vaga de mortes desde que cá cheguei, em que confesso que vacilei.


Um pedacinho de paraíso na Ilha das Galinhas