Antes de falar da parte do trabalho na Ilha das Galinhas, do qual demorei
umas 24h a recuperar o fôlego, vou aqui apresentar a ilha em si.
| Uma tabanca nada mais é que um aglomerado de palhotas |
Ao verificar como realmente é isolada do resto do mundo, custa-me agora
menos perceber o que dizem sobre a AMI – que vai onde mais ninguém quer ir. Tem
uma população de cerca de 2000 habitantes, distribuídos por 11 tabancas.
Existe 1 enfermeiro para toda a população, que trabalha no único
"centro de saúde", localizado grosso-modo no centro da ilha.
Para sair da ilha, os locais têm de pedir boleia aos barcos que por lá
passam, entre os quais, a canoa da AMI.
| Depois de contornados os mangais, a chegada a Ametite por mar |
A AMI já anteriormente tinha construído latrinas em todas as tabancas da
ilha, num micro-projecto de saneamento. No entanto, assim que chegamos a
Ametite, local do primeiro dia de consultas, o Agente de Saúde Básica (ASB),
que deveria dar o exemplo ao resto da população, aparece-nos finalmente, logo
após ter ido defecar à mata... "Que bom que isto vai ser..." pensei
logo.
| Comissão de boas-vindas |
Depois há a questão dos poços… Não há um que não tenha contaminação fecal. Perto
de Ancano de Canhabaque (2º dia de consultas) existe o poço com piores condições
– um grande buraco no chão, com uma água de cor esbranquiçada. Não deverá ter
sido por coincidência que lá vi a maior prevalência de problemas de pele e de
diarreia.
A tarefa seguinte foi ir na moto, espalmado entre o Mustafa e as caixas de
medicamentos, "espalhar a Boa Nova" pelas tabancas. Os caminhos são
tão incríveis que filmei um bom bocado de um troço. Quando uma árvore cai, é
mais fácil ir desbastando um novo caminho à volta! Para a população não faz
grande diferença, pois os únicos veículos a motor na ilha inteira são as motos
da AMI e a moto do enfermeiro local.
| No cultivo do arroz, a função das crianças é manter os pássaros afastados na secagem |
Mas o maior perigo reside no gado que pasta à beira desses caminhos, atados
à vegetação circundante, mas com corda suficiente para atravessarem. Quando se
assustam com o barulho da moto, a corda inevitavelmente estica. O resto, deixo
à imaginação. Apesar de avisados, os locais não mudam hábitos.
Quando nos deparamos com um obstáculo quase incontornável (uma árvore
caída), o Mustafa utiliza um argumento de peso – se não resolverem o problema,
não haverá consultas em Ancano de Canhabaque. No caminho de regresso, os ramos
já tinham sido serrados!
| Um dos habitantes mais idosos |
Depois de convocadas as pessoas, é altura de ir para Ambancana, tabanca
onde está a casa da AMI e local do 3º dia de consultas. Diga-se de passagem que
esta tabanca é da era espacial, se comparada com as demais tabancas insulares. Têm
já o hábito de ferver toda a água que utilizam, o que traduziu um dia de
consultas quase sem problemas cutâneos ou gastrointestinais.
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| O grupo de teatro e dança local numa acção de sensibilização sobre a SIDA |
| A "nossa" casa... |
A casa é um cubículo sem água nem luz (como era de esperar), mas situada a
2 passos da praia. O mergulho na maré-alta no final do dia de trabalho, após um
repasto preparado na brasa, era um ritual quase religioso. Ganhava proporções
realmente celestiais quando ao longe deflagravam rajadas de relâmpagos.
| ...e a "nossa" praia. A maré baixa deixa perceber o fundo lodoso e os mangais ao fundo, mas garanto que o mergulho era divinal. |
Tenho estado a aproveitar a existência
de electricidade, mas agora, com a vossa licença, vou aproveitar o resto de luz
solar para findar a preparação das caixas para a ronda de Bolama que começa
amanhã.
Deixo-vos só o vislumbre com que fomos premiados na viagem de ida:
| Tenho pena de não poder por a foto com a resolução original. Flamingos a levantar voo |
