D2 - Gostava mesmo de poder escrever que acordei fresco e seco, mas a
ventoinha que me refrescou durante a noite não mostrava sinais de vida. Hoje
seria o dia mais quente em Bissau este ano, em que até os guineenses sofreriam
e suariam em bica. De lanterna em punho, lá tomei o duche frio da praxe, e
constatei que o organismo mantém a homeostase. Também gostava de poder dizer
que as burocracias se resolveram facilmente, mas o Programa Nacional de Luta
contra o Paludismo (PNLP) não nos deu autorização para levantar anti-maláricos
no CECOME, sob o pretexto de que a Direcção Regional de Saúde de Bolama já o
tinha feito recentemente, e deveríamos pedir os medicamentos na farmácia do
hospital de Bolama. Ora, a AMI é que tem fornecido a farmácia do hospital de
Bolama... Pensamento do dia: será que amanhã vamos pedir anti-maláricos que a
AMI doou anteriormente?
Sr. Carlos, dono do Jordânia, onde pernoitámos, é um português castiço,
excelente anfitrião, e pelos vistos empreendedor, com um projecto em marcha em
Bolama. Esperemos, pela nossa saúde mental, que vá para a frente em breve.
17h - Tempo de carregar a medicação e a bagagem na canoa que nos levaria até
Bolama. Flutua. Nada mau!
O pôr-do-sol ilumina ainda um pelicano que pesca.
20h - Chegada a Bolama. Felizmente há luar porque as únicas luzes são do barco que estreou hoje de
manhã a travessia Bissau-Bolama. Que acontecimento! Pousamos a bagagem na casa
da era colonial que a AMI arrenda (que descreverei assim que a luz do dia me permita) e subimos a
bordo ver Portugal a ganhar 5-3 à Islândia, ao sabor da Cristal mais gelada de sempre.
Organizo a minha cabeça para amanhã, o trabalho a sério vai começar. Nota
mental: preparar ronda da Ilha das Galinhas, estratégias para educar a população
relativamente à lavagem das mãos, informar-me do âmbito de intervenção no
terreno do SNLS (S. Nacional de Luta contra a SIDA) e tentar perceber como a
AMI poderá contribuir na Região de Saúde de Bolama (RSB), estabelecer protocolo
de colaboração no levantamento de dados epidemiológicos de paludismo com a DRS
Bolama / PNLP, estreitamento de relações entre AMI e a DRS Bolama, continuar
trabalho de autonomização gradual da farmácia do Hospital de Bolama. Quero
estabelecer como objectivo para os meus 3 meses de missão pelo menos um dos
pontos supra-citados (e tenho a sensação de que me esqueço de algo em que
pensei hoje à tarde). Gerir a farmácia repondo stocks, sobretudo no que
respeita aos anti-maláricos.
Palavras-chave: educação, higiene, consultas,
recursos humanos, recursos materiais (incl. medicamentosos), paludismo/malária,
SIDA, DRS Bolama.
Um banho de caneca tomado à luz de lanterna nunca me tinha sabido tão
bem... Até à hora do "desodorizante" com fragrância de Raid.
Aceder à net hoje está a ser um filme coreano legendado em sueco… e tinha
umas fotos giras… Por falar nisso!... Os pombos não são bem o que estava à
espera… são abutres! Aos bandos, quase em cada esquina, juntam-se onde há mais
lixo orgânico (geralmente restos de peixe). Regra geral, onde há cheiro a amónia,
há abutres. E bem grandes.
Boa noite.