quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Até um outro biáz!

O primeiro mês pareceu um ano... O último pareceu uma semana. E esta última semana parece um mês.

Na fase de negação, tudo custa a passar, parece que não se tem os pés bem assentes na terra. Segue-se a revolta, e tudo está mal, tudo tem que ser mudado, e o mundo pesa como nunca pesou antes. A negociação só faz nascer mais cabelos brancos. A depressão, qual sanguessuga, esvazia corpo e mente de toda a energia, até quase se instalar a letargia. Com a aceitação ganha-se novo ânimo, mas a vontade de mudar o mundo sozinho ficou pelo caminho.

Não quero com isto dizer que não valeu a pena. Não quero com isto dizer que sinto que não fiz nenhuma diferença.

Sinto que valeu a pena sempre que penso no dia em que entrei nesta terra vermelho-verdejante como um cachorrinho assustado. Sinto que fiz diferença quando vejo sorrir quem vi a lutar pela vida.

Mas é uma diferença pontual.

Posso no entanto dizer que nem uma só vez violei os meus princípios, e isso, na adversidade, é por si uma vitória.

Passadas 817 consultas, fui chamado "combatente". Não me sinto tal coisa. Sinto-me um "aprendiz".
Em Bolama, não vi um único desalojado. Podem dormir mais de uma dezena debaixo do mesmo telhado, mas ninguém é deixado à chuva. Esta, entre outras atitudes, reflecte uma maneira de estar na vida muito mais humana do que aquela a que nos acomodamos diariamente. Anteriormente, descrevi uma tabanca como "nada mais do que um aglomerado de palhotas". Aprendi que uma tabanca é uma entidade viva, feita de gente que vive em eterna comunhão. Ninguém é abandonado. Ninguém é deixado para trás.
A morte é comum, mas não é banal. É sentida com a mesma dor pela família e pelos vizinhos. A fome é sentida de igual modo por todos, queira a Natureza mostrar-se implacável. E a alegria é partilhada por todos também.

É hora de passar o testemunho. Divido-me entre a saudade de casa e a saudade que já levo deste chão crioulo.

Mas digo com convicção: Até um outro biáz, fijus di terra! Nô sta djunto!