segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Teoria da Relatividade

Bom dia, bom dia!

Kumã bu mansi?

Estamos naquela altura do mês... Altura de vir a Bissau. Quando cá pus os pés pela primeira vez tudo era novo e tudo era 3º mundo. Tudo mudou. Depois de passar 1 mês a tomar banho de caneca e a ter luz só quando o senhorio se lembra que precisa de gelo ou quando ligamos o gerador (quando funciona!), que não pode ser mais que 2 horas por dia por questões de racionamento, depois de passar 1 mês a comer arroz de chabéu com peixe-agulha, arroz de caril com safio, arroz com tainha ou arroz com arroz, Bissau parece a nova Nova-Iorque. Poder ir ao Kaliste comer um delicioso bife com molho de Roquefort, acompanhado de uma Super Bock bem gelada ou ir jantar à Adega do Loureiro um belo polvo à lagareiro regado com Romeira tinto fez-me soltar duas tímidas lágrimas; uma quando o prato aterrou na mesa e soltou o seu aroma, outra quando a última garfada deslizou pela glote. Poder ligar o ar condicionado e estar uns minutos indeciso quanto ao ajuste da temperatura - 26 ou 27º? - poder pegar no chuveiro e temperar a água ao gosto da minha pele, poder carregar num botão mágico que acciona uma invenção há muito esquecida - o autoclismo, poder estar aqui sentado e partilhar este pensamento enquanto fervilha sem estar preocupado com o indicador de bateria que já pisca a vermelho... Todos estes "poderes" ganharam um estatuto de luxo em tão poucos dias.

Bolama tem muito encanto, apesar de ser uma mera sombra do que as quarentonas fotografias, guardadas religiosamente num poeirento álbum de um bolamense saudoso, deixam perceber. Mas Bissau, cidade natal dos Toca-Toca, parece-me agora uma autêntica metrópole. Tudo é relativo.

Hoje já me desloquei ao CECOME para fazer o pedido dos medicamentos e material que teremos que levar para o mês de Novembro e não tenho nada mais senão trabalho administrativo para fazer hoje. Assim, como há tempo para inventar desculpas para não trabalhar, e aproveitando o luxo de ter internet por wifi, deixo aqui o "Manual do Toca-Toca".

Chama-se Toca-Toca porque, uma vez lá dentro, ombro toca em ombro, braço toca em braço, suor toca em suor...
Como apanhar o Toca-Toca:
1º Gritar bem alto quando algum passa, para que os passageiros abram a porta.
2º Correr o mais rápido possível, e preferencialmente pelo meio do trânsito.
3º Saltar lá para dentro, encenando algum episódio da série McGyver ou Esquadrão Classe A, consoante a preferência.
4º Certificar-se que a carreira escrita no exterior é mesmo a praticada pelo condutor.

Após este pequeno interlúdio cultural, ainda vos estou a dever o compte-rendu da ronda de S. João. O jipe atravessou o canal no dia anterior ao início da ronda, já com as caixas de medicação por mim preparadas. A equipa médica todos os dias apanhava a canoa do Tio Buli de manhã, tinha rendez-vous marcado com o Tio Alfa e o seu maior amor, e seguíamos viagem. Gã-Bacar, Gã-Mindjor e Berculom são as tabancas onde a AMI dá consultas.


Pelo caminho, vemos que a escola já começou. O início oficial do ano lectivo foi anunciado no início de Outubro mas na prática só recentemente é que se iniciaram as aulas, apesar de se manterem os problemas de falta de materiais, de falta de ordenados dos professores e mesmo de condições das próprias escolas.


Também foi inaugurada, no passado dia 26/10, a Escola de Enfermagem de Bolama! Espero que tenha sucesso e que dure.

As consultas na ronda de S. João são comparáveis às de Bolama. Apesar de existirem sempre problemas ligados à utilização e ao consumo de águas impróprias, problemas de higiene, desnutrição, malária, não há um volume de doentes exagerado nem casos tão graves como na Ilha das Galinhas. Aqui, as pessoas não estão verdadeiramente isoladas, apesar das deslocações também não serem fáceis. As condições em que vivem e o grau de instrução (embora básico) são portanto superiores.


As crianças são em todo o lado o grupo mais vulnerável. Na Guiné, a mortalidade infantil é astronómica, e segundo o Ministério da Saúde, a principal causa de morte ainda é a malária. No entanto, os acidentes são mais que muitos. Ainda não presenciei nenhum, mas o Pedro, que está cá há cerca de 8 meses, conta pelo menos uma dezena que morreram afogados no canal, afogados em poços desprotegidos, queimados na destilação artesanal do vinho de caju...

Nas tabancas cozinha-se no fogo, no chão à porta de casa, sem qualquer tipo de barreira ou protecção. Como é óbvio, muitas crianças se queimam com brasas ou água a ferver... A fotografia pode impressionar, mas este miúdo teve sorte, apesar de tudo. Já tem a cicatrização quase completa, e sem aparente infecção.


Quantos miúdos já eu consultei com queimaduras destas ou piores? Tenho tudo registado, mas não me atrevo a ir agora contar. Quantos com problemas de higiene, que só precisavam que a mãe lhes desse um banho por dia? Quantos com  problemas de desnutrição porque onde a dificuldade é muita, impera a lei do mais forte?

A vida não tem preço, mas por aqui ainda não tem muito valor também...

Depois da consulta é hora de ir ao mato buscar uma gazela ou uma cabra-do-mato para o jantar, porque Agente de Saúde Comunitária não é reconhecido e não tem salário enquanto a reforma da Saúde não chegar a Bolama (o ministério diz ter todos os fundos alocados à campanha de distribuição de redes mosquiteiras para prevenção da malária. Foi pena não ter dado formação aos ASC de todas as regiões ao mesmo tempo, porque só ficou a faltar Bolama).


E no fim do dia, lá íamos nós esperar pelo Tio Buli o tempo que fosse necessário (recorde estabelecido de 2 horas até agora) para voltarmos para casa, porque a travessia tem que ser rentável pelo número de passageiros, e o descanso entre viagens é fundamental...

Fui o meu próprio barbeiro... Que tal? :)

Bom... isto hoje é uma fartura! Para celebrar, finalizo com mais umas fotografias. Desta vez com uma amostra da fauna nocturna da casa da AMI de Bolama.

Antes eram as Tartarugas-Ninja. Agora é a vez dos Louva-a-Deus!

Batman ou Drácula?


A outra era maior... mas não estava no meu quarto.

3 comentários:

  1. Bem vindo à civilização! será?
    aproveite os luxos!
    Jorge feliciano

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  2. Estares a beber superbock indica que ainda não estás totalmente dentro da cultura guineense! Então e a pampa? :-)

    Beijocas

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  3. Bom dia , bom dia Kumã di korpo? sta bom?
    kumã di familia? Pra bia di ke'
    i ostra Ka ten?
    bO Pudi trazer?

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