terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Lei de Murphy

Esta lei diz-nos que o que de pior pode acontecer acontece realmente. Antes da minha partida para as Galinhas, tenho ainda tempo para contar o que se passou.


Na manhã do dia 07.11.2011, a equipa de desenvolvimento da Missão AMI Guiné-Bissau partiu como previsto para a Ilha das Galinhas. Segundo o plano mensal a equipa médica partiria no dia 09.11.2011.
Na tarde do dia 07.11, a coordenadora de país e o médico de missão receberam um telefonema do técnico de desenvolvimento sobre um doente do sexo masculino e 16 anos de idade que se encontrava em estado crítico, aos cuidados do Enfermeiro Jorge Alves, único na ilha, no Centro de Saúde de Acampamento.
Cinco dias antes, tinha iniciado um quadro agudo de malária, para o qual foi tratado com CoArtem (artemether + lumefantrina) e paracetamol. Teve melhoria clínica mas o seu estado voltou a agravar-se após o tratamento. Foi novamente observado pelo Enfermeiro, que pôs a hipótese diagnóstica de pneumonia e iniciou tratamento com amoxicilina, mas o quadro continuava a agravar-se. Por ausência de meios mais diferenciados, um tratamento de 2ª linha não era possível, e por ausência de qualquer meio de transporte marítimo, a evacuação do doente também não era possível.
No dia da chegada da equipa de desenvolvimento, o quadro era de um doente já com alteração do estado de consciência, que não respondia à medicação. A primeira prioridade era a evacuação do doente, o que apenas seria possível na manhã do dia seguinte, por não existir uma estrutura na ilha que torne os embarques independentes da maré.
Na manhã do dia 08.11.2011, o doente foi então evacuado por via marítima para Bolama de Baixo.
A equipa médica da AMI solicitou o apoio da ambulância disponível no Hospital de Bolama, mas o pedido foi indeferido por más condições da estrada, sendo proposta a carrinha “Pickup” do governador como alternativa. Saída de Bolama às 7h45, a equipa chegaria ao local às 8h30, onde o doente já se encontrava.
A primeira observação pelo médico teve de ser na própria caixa aberta da carrinha, por ser o local que melhores condições apresentava.
O doente apresentava-se obnubilado, não respondendo a estímulos verbais, respondendo com flexão estereotipada a estímulos dolorosos e com abertura espontânea dos olhos – GCS 8/15 – e episódios paroxísticos de agitação motora. Apresentava uma taquicardia de cerca de 120 bpm, taquipneia, uma TA de 150/100 mmHg, e uma temperatura axilar de 35ºC. À auscultação cardio-pulmonar apresentava fervores subcrepitantes bi-basais exuberantes. Realizou-se um teste rápido de malária, com resultado negativo.
Estabeleceu-se como hipóteses diagnósticas:
  1. Sépsis com ponto de partida respiratório
  2. Malária cerebral
Dada a ausência de meios suplementares, por falta de material na farmácia da AMI, (i.e. sistemas de administração endovenosa continuada de líquidos) iniciou-se apenas tratamento com administração única de ceftriaxone 1g intra-muscular e procedeu-se então ao transporte do doente para o Hospital de Bolama, onde seria internado e, ao cuidado do Dr. Dam Zora Namgomté que se encontrava já à espera, iniciaria tratamento com quinino endovenoso e continuaria ceftriaxone 1g/dia.
No caminho de regresso, fomos ainda surpreendidos pela Enfermeira Fatumata da USC de Wato, que pedia “boleia” para uma doente ao seu cuidado, grávida, com suspeita de paludismo e ameaça de parto pré-termo, ao que acederíamos. Devido às más condições da estrada, o caminho de volta foi penoso e causador de sofrimento que esta doente não conseguia esconder.

Presentemente, aguardo notícias sobre a evolução clínica dos doentes transferidos, no entanto, mantenho prognóstico muito reservado para o doente evacuado. Para mais, mesmo após as avultadas doações efectuadas em missões anteriores, o pai do rapaz veio bater à porta da casa da AMI, trazendo a receita do Dr. Dam e dizendo que na farmácia do hospital não existia ceftriaxone…

Actualização da mensagem, agora que voltei das Galinhas e já tomei um demorado duche para limpar os restos de ilha do meu corpo:


O doente evacuado da Ilha das Galinhas faleceu nessa mesma noite de 08.11.2011, e seu corpo foi por nós transportado de volta para a ilha, juntamente com seus familiares. Escusado será de dizer que o ambiente não era de festa...

Chegados à Ilha das Galinhas, outro jovem de 25 anos morreu à mercê do plasmodium, e evacuámos outros 2, presentemente internados no Hospital de Bolama, a efectuar tratamento. No decorrer das consultas diagnostiquei e tratei outros 7 casos.

Não foi uma semana fácil.

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