domingo, 16 de outubro de 2011

Ilha das Galinhas

Antes de falar da parte do trabalho na Ilha das Galinhas, do qual demorei umas 24h a recuperar o fôlego, vou aqui apresentar a ilha em si.


Uma tabanca nada mais é que um aglomerado de palhotas
Ao verificar como realmente é isolada do resto do mundo, custa-me agora menos perceber o que dizem sobre a AMI – que vai onde mais ninguém quer ir. Tem uma população de cerca de 2000 habitantes, distribuídos por 11 tabancas.














Existe 1 enfermeiro para toda a população, que trabalha no único "centro de saúde", localizado grosso-modo no centro da ilha.

Para sair da ilha, os locais têm de pedir boleia aos barcos que por lá passam, entre os quais, a canoa da AMI.



Depois de contornados os mangais, a chegada a Ametite por mar




 

A AMI já anteriormente tinha construído latrinas em todas as tabancas da ilha, num micro-projecto de saneamento. No entanto, assim que chegamos a Ametite, local do primeiro dia de consultas, o Agente de Saúde Básica (ASB), que deveria dar o exemplo ao resto da população, aparece-nos finalmente, logo após ter ido defecar à mata... "Que bom que isto vai ser..." pensei logo.


Comissão de boas-vindas


Depois há a questão dos poços… Não há um que não tenha contaminação fecal. Perto de Ancano de Canhabaque (2º dia de consultas) existe o poço com piores condições – um grande buraco no chão, com uma água de cor esbranquiçada. Não deverá ter sido por coincidência que lá vi a maior prevalência de problemas de pele e de diarreia.




A tarefa seguinte foi ir na moto, espalmado entre o Mustafa e as caixas de medicamentos, "espalhar a Boa Nova" pelas tabancas. Os caminhos são tão incríveis que filmei um bom bocado de um troço. Quando uma árvore cai, é mais fácil ir desbastando um novo caminho à volta! Para a população não faz grande diferença, pois os únicos veículos a motor na ilha inteira são as motos da AMI e a moto do enfermeiro local.


No cultivo do arroz, a função das crianças é manter os pássaros afastados na secagem


Mas o maior perigo reside no gado que pasta à beira desses caminhos, atados à vegetação circundante, mas com corda suficiente para atravessarem. Quando se assustam com o barulho da moto, a corda inevitavelmente estica. O resto, deixo à imaginação. Apesar de avisados, os locais não mudam hábitos.
Quando nos deparamos com um obstáculo quase incontornável (uma árvore caída), o Mustafa utiliza um argumento de peso – se não resolverem o problema, não haverá consultas em Ancano de Canhabaque. No caminho de regresso, os ramos já tinham sido serrados!



Um dos habitantes mais idosos


Depois de convocadas as pessoas, é altura de ir para Ambancana, tabanca onde está a casa da AMI e local do 3º dia de consultas. Diga-se de passagem que esta tabanca é da era espacial, se comparada com as demais tabancas insulares. Têm já o hábito de ferver toda a água que utilizam, o que traduziu um dia de consultas quase sem problemas cutâneos ou gastrointestinais.


O grupo de teatro e dança local numa acção de sensibilização sobre a SIDA




A "nossa" casa...
A casa é um cubículo sem água nem luz (como era de esperar), mas situada a 2 passos da praia. O mergulho na maré-alta no final do dia de trabalho, após um repasto preparado na brasa, era um ritual quase religioso. Ganhava proporções realmente celestiais quando ao longe deflagravam rajadas de relâmpagos.













...e a "nossa" praia. A maré baixa deixa perceber o fundo lodoso e os mangais ao fundo, mas garanto que o mergulho era divinal.



Tenho estado a aproveitar a existência de electricidade, mas agora, com a vossa licença, vou aproveitar o resto de luz solar para findar a preparação das caixas para a ronda de Bolama que começa amanhã.



Deixo-vos só o vislumbre com que fomos premiados na viagem de ida:
Tenho pena de não poder por a foto com a resolução original. Flamingos a levantar voo

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Bolama - fotos a granel


D5 10out2011

Mais um dia passado na farmácia, mas não é mau de todo, pois tive companhia do casal simpático que posou para a fotografia justaposta.

As caixas de material médico e medicamentos estão prontas e revistas para a “Ronda das Galinhas”. Serão 4 dias passados a dar consultas em 3 tabancas diferentes na Ilha das Galinhas, cuja população sofre ainda mais isolamento do que em Bolama.
Mas isto de não haver passagem de testemunho pela médica anterior, e além disso encontrar a farmácia completamente desorganizada, com falta de reposição de stock de coisas básicas e essenciais, e os registos não terem sido actualizados tem-me dado uma trabalheira monstra… A história dos anti-maláricos comprados à pressa ao depósito do Hospital de Bolama é disso um exemplo. A minha preocupação agora é aguentar-me com o material existente até ao fim do mês, altura em que voltaremos a Bissau.

Enfim, à hora de almoço, proporcionou-se um intervalo jeitoso para tocar um pouco de guitarra (sim, há cá uma) e de passear um pouco em Bolama para recarregar o ânimo e tirar umas fotos a granel, que aqui deixo.

O almoço está na mesa!

Cores africanas





Vestígios de outra era

Os tais "pombos" africanos de que falei anteriormente. A que saberão?

Diariamente soa um apito às 7h e às 18h para ser hasteada e recolhida a bandeira no Governo Civil. Nisso há pontualidade.

Existem inúmeras cooperações internacionais a operar na capital. Em Bolama existem apenas a AMI e a AIDA (espanhola), que reabilitou a antiga alfândega para fazer o núcleo de desenvolvimento do sector piscatório.

Está na hora de preparar a mala para amanhã, para a escova de dentes e a mefloquina não ficarem esquecidas. Hoje adormeço ao som de chuvada tropical.

Até 6ª!

domingo, 9 de outubro de 2011

Bolama

Bom dia!

Hoje, o senhorio ligou o gerador da fábrica de gelo! Passo a explicar: não existe rede eléctrica em Bolama. A AMI tem o seu próprio gerador na casa de Bolama, mas raciona muito o seu uso. Liga-o 1 a 2h diariamente. Quer tudo isto dizer que hoje temos luz!

Para celebrar este acontecimento, vim aproveitar para usar o portátil sem a restrição do tempo de bateria. E como descobri que o Picasa faz um upload eficaz das fotografias directamente para o blog, decidi rechear esta mensagem com muitas imagens para vosso deleite!

Antes de tudo, uma visão deliciosa é acordar e ver andorinhas a voar dentro da sala, entrando por uma janela e saindo por outra. 
A qualidade da fotografia não é grande coisa, mas ela está lá.


Entretanto, tivemos de ir buscar o anti-malárico ao hospital de Bolama, que já estava finalmente disponível. Demorámos lá tanto tempo, à espera do responsável do depósito de medicamentos, que quando voltámos, já não havia luz...



Aproveitando o que resta de bateria do PC, vou juntar fotografias de Bolama, que já foi, em tempos, capital da Guiné-Bissau:
Há por todo o lado edifícios da era colonial abandonados e degradados. Este tem muito boa pinta...


No mercado, pode-se comprar algumas coisas como pão, ovos, raspadinhas de saldo para o cartão de telemóvel guineense

Bom dia, bom dia! Kumã bu mansi? E di kurpo, sta drêto?


 No que toca o hospital de Bolama, não aconselharia ninguém a recorrer aos seus serviços. A primeira coisa que notamos quando entramos no recinto, é a ausência de vedação ou qualquer tipo de limitação, pelo que nos deparamos com diversos animais a pastar.

O recinto é composto por 3 pavilhões (antigas casernas de complexo militar), sem comunicação directa entre eles, onde funcionam as unidades de internamento. À esquerda (não aparece na foto) ficam os gabinetes da direcção e o depósito de medicamentos. Não existe água canalizada nem rede eléctrica. A AMI tem um projecto de reabilitação deste complexo delineado para 2012.

Passo a apresentar o nosso "Quartel-General".

À esquerda, até à 5ª janela são as instalações da AMI, ao centro é um segmento desabitado da casa, e à direita (fora da foto) funciona a fábrica de gelo do nosso senhorio.


Como fica situada mesmo ao pé do porto de Bolama, temos esta vista da nossa janela:

 Ao fundo, vemos o canal de água salgada e fundo lodoso que nos separa do continente, e a região de S. João do outro lado, onde também vamos dar consultas.
Aqui mostro a gaiola onde eu durmo (à direita), dividindo o quarto com o Pedro. Como, apesar de tudo, não cheiramos mal dos pés, não é mau de todo. Do tecto pende uma ventoinha cuja função é apenas decorativa... 
Após a recepção oficial preparada pelo Pedro, com umas caipirinhas de aguardente de cana, jantámos sopa de manfafa e ainda tivemos tempo de encontrar um "bar" em Bolama que vende cerveja Cristal relativamente fresca. Das árvores, morcegos com um tamanho respeitável, emitem sons diferentes de tudo o que já ouvi
Ao centro: Coordenadora Local Fernanda, à direita: Técnico de Desenvolvimento Agrícola Pedro


Finalmente, como estamos em África, encerro com uma fotografia da minha companhia quando, fugindo da trovoada que desabou sem aviso, me sentei ao computador na esperança de ter internet, já que tínhamos luz. Mas não há cá milagres...



 Amanhã tentarei escrever porque na 3ª-feira partiremos para a Ilha das Galinhas, que é verdadeiramente isolada do mundo, e voltaremos na 6ª-feira.

P.S: Este post demorou uns bons 3 dias a acabar, entre cortes de energia, morte da bateria e internet guineense... Mas ao menos já me estou a tornar pro na "arte" do downscaling de fotos :)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Felizmente há luar


D2 - Gostava mesmo de poder escrever que acordei fresco e seco, mas a ventoinha que me refrescou durante a noite não mostrava sinais de vida. Hoje seria o dia mais quente em Bissau este ano, em que até os guineenses sofreriam e suariam em bica. De lanterna em punho, lá tomei o duche frio da praxe, e constatei que o organismo mantém a homeostase. Também gostava de poder dizer que as burocracias se resolveram facilmente, mas o Programa Nacional de Luta contra o Paludismo (PNLP) não nos deu autorização para levantar anti-maláricos no CECOME, sob o pretexto de que a Direcção Regional de Saúde de Bolama já o tinha feito recentemente, e deveríamos pedir os medicamentos na farmácia do hospital de Bolama. Ora, a AMI é que tem fornecido a farmácia do hospital de Bolama... Pensamento do dia: será que amanhã vamos pedir anti-maláricos que a AMI doou anteriormente?
Sr. Carlos, dono do Jordânia, onde pernoitámos, é um português castiço, excelente anfitrião, e pelos vistos empreendedor, com um projecto em marcha em Bolama. Esperemos, pela nossa saúde mental, que vá para a frente em breve.
17h - Tempo de carregar a medicação e a bagagem na canoa que nos levaria até Bolama. Flutua. Nada mau!
O pôr-do-sol ilumina ainda um pelicano que pesca.
20h - Chegada a Bolama. Felizmente há luar porque as únicas luzes são do barco que estreou hoje de manhã a travessia Bissau-Bolama. Que acontecimento! Pousamos a bagagem na casa da era colonial que a AMI arrenda (que descreverei assim que a luz do dia me permita) e subimos a bordo ver Portugal a ganhar 5-3 à Islândia, ao sabor da Cristal mais gelada de sempre.
Organizo a minha cabeça para amanhã, o trabalho a sério vai começar. Nota mental: preparar ronda da Ilha das Galinhas, estratégias para educar a população relativamente à lavagem das mãos, informar-me do âmbito de intervenção no terreno do SNLS (S. Nacional de Luta contra a SIDA) e tentar perceber como a AMI poderá contribuir na Região de Saúde de Bolama (RSB), estabelecer protocolo de colaboração no levantamento de dados epidemiológicos de paludismo com a DRS Bolama / PNLP, estreitamento de relações entre AMI e a DRS Bolama, continuar trabalho de autonomização gradual da farmácia do Hospital de Bolama. Quero estabelecer como objectivo para os meus 3 meses de missão pelo menos um dos pontos supra-citados (e tenho a sensação de que me esqueço de algo em que pensei hoje à tarde). Gerir a farmácia repondo stocks, sobretudo no que respeita aos anti-maláricos.
Palavras-chave: educação, higiene, consultas, recursos humanos, recursos materiais (incl. medicamentosos), paludismo/malária, SIDA, DRS Bolama.
Um banho de caneca tomado à luz de lanterna nunca me tinha sabido tão bem... Até à hora do "desodorizante" com fragrância de Raid.
Aceder à net hoje está a ser um filme coreano legendado em sueco… e tinha umas fotos giras… Por falar nisso!... Os pombos não são bem o que estava à espera… são abutres! Aos bandos, quase em cada esquina, juntam-se onde há mais lixo orgânico (geralmente restos de peixe). Regra geral, onde há cheiro a amónia, há abutres. E bem grandes.
Boa noite.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Dia D


D0 5OUT2011 - Descolagem de Lx 22h. Despeço-me das luzes portuguesas na ponta de Sagres. 
Do avião: escuridão total no solo. Chegada Bissau 1h20 hr local. Bafo quente e húmido à saída do avião,mas não tão forte como esperava, talvez pelos avisos que já levava. Fernanda (coordenadora local AMI), Pedro (tec. Desenvolvimento AMI) e Hugo (Cooperação Portuguesa) foram-me buscar ao aeroporto. 
Deixámos bagagem no hotel Solmar, onde iríamos pernoitar, e fomos à procura de algo para beber. Encontramos espelunca bafienta, onde um local bêbedo e falador nos conta que estudou na Faculdade de Letras de Coimbra. Cerveja Tuga em todo o lado, especialmente Cristal. Conversa torna-se mais política - está na hora de voltar. Pedro cai redondo na sua cama. Adormeço sem dificuldade.

D1 - Acordo encharcado em suor. Pedro apressa-se a sair para reunião no Ministério da Agricultura. Duche frio sabe-me pela vida.
Sou apresentado ao Mustafa (activista de saúde local AMI) que, dizem-me, será o meu braço direito, e Braima (marinheiro AMI).
Foto da Rua da Embaixada de Portugal
Delineamos plano para manhã atarefada: tirar fotos tipo passe - nao da pq n ha luz. Noutra loja na rua ao lado, explorada por um chinês, há luz. "15 minutos estão prontas, chefe". Próxima paragem: Consulado português fazer registo de entrada no país. Seguidamente, dirigimo-nos à CECOME para encomendar medicamentos. Não podemos levar hoje porque a responsável do armazém não está, e para os anti-maláricos é preciso uma autorização do Gabinete Contra o Paludismo do Ministério da Saúde.
Já com fome, paramos para pizza. Temos à escolha para beber, entre outras, Super Bock, Caramulo, Sagres, Luso, Cristal, Cintra... De facto, o único vislumbre de África e não de um "Portugal Júnior" poeirento, esburacado e abafado, foi do Bairro do Bandim, que faço planos mentais para visitar quando voltarmos a Bissau.
Ministério da Saúde: Dr. Paulo do Gabinete Contra o Paludismo não se encontra porque está em conferência de imprensa. Balbucio desdenhosamente "Ah e tal... não pode ser porque não-sei-quem não está -- E volta? -- Não sei... -- E pode ligar? -- Não tenho o número...". Mas estes atendimentos infrutíferos não foram total perda de tempo... porque havia ar condicionado.
Decidimos ficar em Bissau mais um dia para podermos levar os medicamentos connosco para Bolama. O Mustafa diz-nos que há ruptura de stock de anti-maláricos na farmácia da AMI, e precisamos para levar para a Ilha das Galinhas na 2ª-feira.
Fim de tarde no lounge do hotel Ancar a aproveitar o AC e fazer contabilidade. A selecção de Angola cruza-se connosco no lounge; haverá Guiné-Angola no sábado.
Jantar - espetada de tamboril grelhado sobre conversa amena. De chorar por mais.
Pensamento no duche frio antes de dormir - "Farto de transpirar continuamente e do pó vermelho que assalta a faringe, Bissau não deixa uma boa impressão diurna. Ruas sem luz mas cidade mais agradável de noite. Curioso por conhecer Bolama".

Antes de mais...

...peço desculpa pelo estilo telegráfico que este blog terá. A Guiné-Bissau  é um país do 3º mundo, pelo que a minha ligação com o mundo exterior, nomeadamente por internet, é precária.
O blog será também muito desprovido de imagens, pois carregá-las seria uma tarefa hercúlia para esta nossa pen Orange.
No fundo, este meio de comunicação servirá primariamente para vos comunicar que me encontro vivo e de boa saúde repetidamente nos próximos meses. Pelo meio, encontrarão registos em jeito de logbook do que vai acontecendo por cá.
Saudosamente vos escreverei sempre que possível.