sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Felizmente há luar


D2 - Gostava mesmo de poder escrever que acordei fresco e seco, mas a ventoinha que me refrescou durante a noite não mostrava sinais de vida. Hoje seria o dia mais quente em Bissau este ano, em que até os guineenses sofreriam e suariam em bica. De lanterna em punho, lá tomei o duche frio da praxe, e constatei que o organismo mantém a homeostase. Também gostava de poder dizer que as burocracias se resolveram facilmente, mas o Programa Nacional de Luta contra o Paludismo (PNLP) não nos deu autorização para levantar anti-maláricos no CECOME, sob o pretexto de que a Direcção Regional de Saúde de Bolama já o tinha feito recentemente, e deveríamos pedir os medicamentos na farmácia do hospital de Bolama. Ora, a AMI é que tem fornecido a farmácia do hospital de Bolama... Pensamento do dia: será que amanhã vamos pedir anti-maláricos que a AMI doou anteriormente?
Sr. Carlos, dono do Jordânia, onde pernoitámos, é um português castiço, excelente anfitrião, e pelos vistos empreendedor, com um projecto em marcha em Bolama. Esperemos, pela nossa saúde mental, que vá para a frente em breve.
17h - Tempo de carregar a medicação e a bagagem na canoa que nos levaria até Bolama. Flutua. Nada mau!
O pôr-do-sol ilumina ainda um pelicano que pesca.
20h - Chegada a Bolama. Felizmente há luar porque as únicas luzes são do barco que estreou hoje de manhã a travessia Bissau-Bolama. Que acontecimento! Pousamos a bagagem na casa da era colonial que a AMI arrenda (que descreverei assim que a luz do dia me permita) e subimos a bordo ver Portugal a ganhar 5-3 à Islândia, ao sabor da Cristal mais gelada de sempre.
Organizo a minha cabeça para amanhã, o trabalho a sério vai começar. Nota mental: preparar ronda da Ilha das Galinhas, estratégias para educar a população relativamente à lavagem das mãos, informar-me do âmbito de intervenção no terreno do SNLS (S. Nacional de Luta contra a SIDA) e tentar perceber como a AMI poderá contribuir na Região de Saúde de Bolama (RSB), estabelecer protocolo de colaboração no levantamento de dados epidemiológicos de paludismo com a DRS Bolama / PNLP, estreitamento de relações entre AMI e a DRS Bolama, continuar trabalho de autonomização gradual da farmácia do Hospital de Bolama. Quero estabelecer como objectivo para os meus 3 meses de missão pelo menos um dos pontos supra-citados (e tenho a sensação de que me esqueço de algo em que pensei hoje à tarde). Gerir a farmácia repondo stocks, sobretudo no que respeita aos anti-maláricos.
Palavras-chave: educação, higiene, consultas, recursos humanos, recursos materiais (incl. medicamentosos), paludismo/malária, SIDA, DRS Bolama.
Um banho de caneca tomado à luz de lanterna nunca me tinha sabido tão bem... Até à hora do "desodorizante" com fragrância de Raid.
Aceder à net hoje está a ser um filme coreano legendado em sueco… e tinha umas fotos giras… Por falar nisso!... Os pombos não são bem o que estava à espera… são abutres! Aos bandos, quase em cada esquina, juntam-se onde há mais lixo orgânico (geralmente restos de peixe). Regra geral, onde há cheiro a amónia, há abutres. E bem grandes.
Boa noite.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Dia D


D0 5OUT2011 - Descolagem de Lx 22h. Despeço-me das luzes portuguesas na ponta de Sagres. 
Do avião: escuridão total no solo. Chegada Bissau 1h20 hr local. Bafo quente e húmido à saída do avião,mas não tão forte como esperava, talvez pelos avisos que já levava. Fernanda (coordenadora local AMI), Pedro (tec. Desenvolvimento AMI) e Hugo (Cooperação Portuguesa) foram-me buscar ao aeroporto. 
Deixámos bagagem no hotel Solmar, onde iríamos pernoitar, e fomos à procura de algo para beber. Encontramos espelunca bafienta, onde um local bêbedo e falador nos conta que estudou na Faculdade de Letras de Coimbra. Cerveja Tuga em todo o lado, especialmente Cristal. Conversa torna-se mais política - está na hora de voltar. Pedro cai redondo na sua cama. Adormeço sem dificuldade.

D1 - Acordo encharcado em suor. Pedro apressa-se a sair para reunião no Ministério da Agricultura. Duche frio sabe-me pela vida.
Sou apresentado ao Mustafa (activista de saúde local AMI) que, dizem-me, será o meu braço direito, e Braima (marinheiro AMI).
Foto da Rua da Embaixada de Portugal
Delineamos plano para manhã atarefada: tirar fotos tipo passe - nao da pq n ha luz. Noutra loja na rua ao lado, explorada por um chinês, há luz. "15 minutos estão prontas, chefe". Próxima paragem: Consulado português fazer registo de entrada no país. Seguidamente, dirigimo-nos à CECOME para encomendar medicamentos. Não podemos levar hoje porque a responsável do armazém não está, e para os anti-maláricos é preciso uma autorização do Gabinete Contra o Paludismo do Ministério da Saúde.
Já com fome, paramos para pizza. Temos à escolha para beber, entre outras, Super Bock, Caramulo, Sagres, Luso, Cristal, Cintra... De facto, o único vislumbre de África e não de um "Portugal Júnior" poeirento, esburacado e abafado, foi do Bairro do Bandim, que faço planos mentais para visitar quando voltarmos a Bissau.
Ministério da Saúde: Dr. Paulo do Gabinete Contra o Paludismo não se encontra porque está em conferência de imprensa. Balbucio desdenhosamente "Ah e tal... não pode ser porque não-sei-quem não está -- E volta? -- Não sei... -- E pode ligar? -- Não tenho o número...". Mas estes atendimentos infrutíferos não foram total perda de tempo... porque havia ar condicionado.
Decidimos ficar em Bissau mais um dia para podermos levar os medicamentos connosco para Bolama. O Mustafa diz-nos que há ruptura de stock de anti-maláricos na farmácia da AMI, e precisamos para levar para a Ilha das Galinhas na 2ª-feira.
Fim de tarde no lounge do hotel Ancar a aproveitar o AC e fazer contabilidade. A selecção de Angola cruza-se connosco no lounge; haverá Guiné-Angola no sábado.
Jantar - espetada de tamboril grelhado sobre conversa amena. De chorar por mais.
Pensamento no duche frio antes de dormir - "Farto de transpirar continuamente e do pó vermelho que assalta a faringe, Bissau não deixa uma boa impressão diurna. Ruas sem luz mas cidade mais agradável de noite. Curioso por conhecer Bolama".

Antes de mais...

...peço desculpa pelo estilo telegráfico que este blog terá. A Guiné-Bissau  é um país do 3º mundo, pelo que a minha ligação com o mundo exterior, nomeadamente por internet, é precária.
O blog será também muito desprovido de imagens, pois carregá-las seria uma tarefa hercúlia para esta nossa pen Orange.
No fundo, este meio de comunicação servirá primariamente para vos comunicar que me encontro vivo e de boa saúde repetidamente nos próximos meses. Pelo meio, encontrarão registos em jeito de logbook do que vai acontecendo por cá.
Saudosamente vos escreverei sempre que possível.